partícula de erro.

Logo eu, que me julgava tão conhecedor de cada traço, que ficava vigiando toda manhã em que acordávamos, juntos ou não; fiquei surpreso ao notar aquela imprecisão nova, um defeito no rosto dele. Minúsculo, uma partícula de erro, a mudança pequena que deixava aquele rosto diferente. Outro rosto.
Talvez já estivesse ali, era eu que não havia percebido o erro que trazia junto colado perto da boca, sabe-se lá há quanto tempo.
Dormia quieto, e eu não.

Assoprei de leve, e
aquilo não foi embora.
Talvez se fosse com um simples toque da minha mão, mas eu com esse receio de acordá-lo, não o fiz. Receio também de que me dissesse que sempre tivera aquilo na cara, era eu que nunca havia percebido.
Pisquei lentamente, o defeito permanecia.
Ele era o mesmo, não havia problema nenhum, na realidade. Minha voz trancou, minha boca secou. E
ra pequeno, era quase insignificante... e o deixava diferente do cara que eu amava, isso bastava. Não bastaria pra qualquer um? Pois deveria.
Houveram esquecimentos, problemas, uma confusão vertiginosa que me fazia mentir quase todos os dias.
Doeu, então. Doeu ver que eu não era mais o mesmo, e nem ele. Num dia qualquer, aquilo passaria despe
rcebido, e tudo continuaria em seu teimoso ritmo normal e errado.
Era o fim, eu pensei. Saí da cama na ponta dos pés, me vesti e saí porta afora. Queria ficar mais
- porém, reconheci a hora de ir. O deixei ali deitado, com seu sono pequeno e sua nova marca naquele "belo" - ok, sem ironias e aspas. era belo, mesmo - rosto. Teria sido eu a fazer aquilo, quem sabe? Talvez, quando brigamos, vai saber. Não importavam essas paranoias de retardo emocional!
Sem beijos de d
espedida e nem abraços.

Ele acordou, eu sei. Ele abriu os olhos e não me viu deitado ao lado, e nem bilhetes também. Sei que não me procurou pelo quarto, e sei que não ficou surpreso. E mais do que tudo, sei
que olhou-se no espelho e passou água no rosto, ainda acordando. Sua nova característica no rosto permaneceu ali, silenciosa e nem notou diferença ao ver um reflexo possivelmente diferente no espelho.
Sei que deitou novamente na cama e olhou para o teto.
Sei que pensou em mim, e sei que não sorriu.

e essa liberdade que pousa na minha cara agora? Faço o quê com ela?




fotografia de Diego Bertoldi

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