my nude clocks.

17h45min.
O relógio faz desenhos incríveis com seus ponteiros e algarismos, e o desse horário é o que eu mais acho bonito. Eles fazem uma linda precisão nesses ângulos todos... eu não deveria, mas estou indo embora, e dessa vez, acho que em definitivo. Não houveram acordos, ninguém mais sentia aquela falta que antes se sentia, aquela de doer o coração...o que passou, obviamente passou, mas ficou impregnado nas minhas roupas e no meu apartamento.
Tem um cara fumante com uma camisa do Bowie, tão sério em seus pensamentos. Imagino ele sorrindo e penso como é estranho. Gostaria de até conversar com ele, mas não posso...se tô indo embora, essa não é a hora de criar vínculos aqui.
Só o relógio é bonito em sua programação.
Mais um café antes de eu ir embora.

18h.
Mas estou feliz, sério. Parece brincadeira, mas não. Tudo o que fiz nos últimos tempos foi me divertir, oras.. de tudo que é jeito. Claro, ainda não falei pra Suzana que não gostei do presente; não saí com o Daniel praquele bar na Vila Madalena; a Duda tem uma entrevista de emprego segunda-feira e eu nem desejei boa sorte à ela. Enfim.. puxa, o show do Jorge Ben Jor na sexta, vou perder. Disso, eu acho que vou me arrepender...e o cara da camisa do Bowie já foi embora.
Tudo detalhe. Está quase na hora. Tô feliz ainda.
Mais um café antes de eu ir embora.

18h29min.
Tudo foi decidido hoje pela manhã. Ontem à noite eu nem planejava nada. Tem lugarzinhos aqui na cidade onde estão pintados alguns fantasmas, que mesmo fantasmas, aprenderam a psicografar. E eu fui em alguns desses lugares, logo à tarde, que é quando minha cabeça entra em parafuso. Aí decidi então! Na mão eu carreguei umas coisas, minhas mentiras, uns livros.
"ótimo, nós mentimos, não podemos ir adiante. é chato, mas era uma mentira." - foi beleza endiabrada, que nem vinho. Parei de dar espaço pra essas coisas ecoarem na minha cabeça, então.
Compartilhei comigo mesmo essa maçã vermelha e olhando pros lados, meio entediado, vi que viver é maravilhoso.
Mais um café antes de eu ir embora.

19h16min.
Folheei meu caderno.
Ah, ali estava, uma lista enorme de compras a serem feitas. Pra onde eu vou não preciso disso (eu acho !). Nossa, tenho tanta coisas boa pra dizer, fazer, pensar, dar. é,talvez o dia em que eu não sinta nada disso nunca chegue, mas eu, já beirando os 30, sou um cara realizado, e descobri finalmente coisas boas de me enxergar com todo esse distanciamento. Enxergo as falhas melhor, e proibo-me de certos prazeres acompanhados de culpas momentâneas. Abstenho-me da culpa, mas não dos prazeres.- de qualquer forma, está quase na hora de ir embora. - e eu sempre prefiri pensar no que tem de limpo lá fora ao invés da sujeira aqui dentro. Já vi que vou ficar só na vontade de ficar com aquele relógio de parede pra mim...
Mais um café antes de eu ir embora

pro mundo lá embaixo.

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