- Du, vou cochilar um pouco. - Ela falou baixinho, largando em seu colo o seu caderno, aberto, rabiscado em azul e vermelho da caneta bicolor que fazia suas poesias, contos, personagens, ilusões, verdades, meninices. - eu estava com ela quando comprou no bazar perto de casa. Adormeceu, sem se importar com o som da chuva que caía sobre o vidro do carro há horas, naquele engarrafamento.
Thay estava um pouco pálida, uma aparência estranha, seus olhinhos queriam fechar.
Gelei quando a vi apagar, soltando os dedos lentamente do caderno e entrando naquele silêncio só dela. Percebi que algo havia acontecido, que aquilo não era um sono comum, isso se ela realmente havia adormecido. Parecia desmaiada; morta, até. Mas não estava, a via respirando... e nada eu conseguia pensar. À minha frente, uma quilométrica fila de automóveis com os faróis ligados. Todos vermelhos. Todos a salvo da rua e do ar da chuva. Todos sob o barulho das buzinas e da cidade. Todos... todos.
Meu óculos embaçou e o tirei do rosto; eu suava frio, sem conseguir tirar os olhos de Thay, sentada ao meu lado, imersa naquela inconsciência de dama medieval.
Engoli uma saliva a seco, sentindo uma gota de suor escorrer pelos poucos pêlos do meu peito; respirava pela boca, ofegante, ansioso, confrontado com ela como da primeira vez. Thay é minha afeição há tempo suficiente pra esquecer há quanto. Só lembro do dia em que fui ao cinema e lá estava ela, não na tela, obviamente... mas roubando toda a atenção e a luz adorada, enfim.
Thay, eu não sei escrever como você escreve, dessa maneira que me atravessa de frio na mesma hora que excita. – eu poderia, mesmo assim, escrever uma continuação amarela e sem graça do que você faz, desse seu último escrito que fazia, antes de adormecer, aqui ao meu lado, junto a essa coisa que eu sentia desde pequeno.
A caneta rolou e caiu no tapete do meu carro. Observei.
Uma marca úmida de suor atravessa em diagonal meu corpo, é o cinto-de-segurança, marcando a minha camisa clara, e me prendendo. Livro-me dele então, não aliviando minhas vontades e o corpo como deveria.
Você sempre soube, Thay. Eu a quis e amei sempre, com cada... centímetro da minha virilidade, sempre rígida e silenciosa. Eu, um homem, e você, uma mulher... e onde importa isso, se nunca nos completamos? Permaneceu a sua figura sentada, dormindo encantada ao meu lado, de vestido inteiro vermelho, curto, vermelho, sem mistério, vermelho, preciso, vermelho... da cor do cabelo. Pele branca, porcelana de boneca, ela geralmente odiava vestidos assim e vestidos no geral; preferia-se colocar dentro de um fútil jeans branco, que a torneava enquanto eu observava. Like an animal.
- Você tá vulgar. Mas tá linda. – Eu pensava, agarrado nos primeiros botões da minha camisa.
Eu, agachado, cheguei a tocar na caneta para juntá-la, e foi quando meu rosto tocou em seu joelho. Senti com a barba de três dias e com o resto do corpo uma bala disparar, com um piano de trilha sonora. Ela tinha um cheiro estranho, lembrava material escolar perfumado de morango artificialmente. Ali, suando, fiquei, com o rosto colado em seu joelho, olhos fechados, a respiração batia na sua pele e voltava quente de volta pra mim. Minha mão percorreu sua panturrilha, lentamente, cuidadosa. Vertical, pra cima, era como um vôo.
O fiz devagar, como se meus dedos nunca mais fossem ser usados, era a última vez aquela. Thay mal respirava. Senti a sua coxa direita, fria, feminina. E ali como num sonho fiquei, com vontade de chorar; aquilo era impuro, algum dia iria doer no fundo criminoso do meu coração. Algum dia... eu... me puniria como qualquer cristão. Como qualquer homem com sede. Como qualquer discreto e silencioso apaixonado.
Uma lágrima salgada minha desce pela perna de Thay, na mesma hora que a minha mão esquerda deixa ser e a toca por “atravéses”, criminosa íntima que é, onde eu nunca havia tocado, cheia de cuidados. Nos meus dedos não há surpresa alguma do seu íntimo cor-de-rosa. A sinto, a tenho, a encontro, a possuo como as cordas de uma guitarra não dedilhada ainda. Sim... a encontro. Não paro de chorar, é um prazer insuportável; dói a rigidez do meu sexo... em minha calça, em minha culpa. Dói pelo nojo que eu sinto de mim.
Num soluço masoquista meu, ouço Thay tossir.
E geme, sem acordar. Sinto nossos corações baterem juntos.
Ouço os automóveis cheios de raiva buzinarem e percebo que na minha frente a rua livre. Mas ali eu fico, e ainda chove. Com as mãos no volante, olho pra frente.
Então repentinamente, não há chuva, há sol. Não há rua, há uma pista. E não há vazio, Thay está ali logo à frente sorrindo, dedo à boca, menina insinuante; como nunca a vi antes. Não espero a decepcionante resposta feia da lucidez, sei que é um devaneio masculino, um grito silencioso que perturba e me faz esquecer dos motoristas enraivecidos atrás de mim.
A única que existe é a que dorme ao meu lado, segurando seu caderno rabiscado com poesias, contos, personagens, ilusões, verdades, meninices; com a caneta bicolor do bazar perto de casa. A que eu tive passionalmente com os dedos há segundos atrás. Não vejo força pra mover o carro dali... abro a janela, deixo a chuva entrar, violenta. Abro a boca e a permito tocar minha língua. Buzinas de cólera, e a minha cabeça pra fora do veículo, pra fora da janela, encharcada... como se sangrasse todo aquele desejo que não podia existir.
A visão dela nessa pista, e todos seus provocantes atributos... não existem e as tento apagar. – não consigo. Choro, com a cabeça recostada ao volante e me vejo sem palavras, mudo. Engulo outra saliva e respiro fundo, o melhor que posso. Com o corpo todo encharcado da chuva, observo-a novamente. Assisto atento ao quieto espetáculo que é Thay... pela última vez. A visão dela na frente do meu carro desaparece e tudo é novamente como realmente é... uma ajuda que alivia a dor, penso.
Cresce novamente esse permissivo silêncio meu. Estremecendo, piso no acelerador e dirijo novamente, sob a chuva que caía.
Apanho a caneta caída, tiro a mecha ruiva que cobria sua pálpebra.
- Thay... acorda. Nós chegamos.